Os ecos de Tiradentes na música

Principais tópicos da matéria

21 de abril – Dia de Tiradentes. Para esta data histórica vamos falar um pouco sobre as influências na música deste importante momento. De acordo com levantamento feito pela psicóloga francesa Monique Augras em seu livro “O Brasil do Samba-Enredo” (FGV, 1998), Tiradentes foi o vulto nacional mais citado em sambas-enredo no período de 1948-75.

Temas Históricos

Durante este período de 1948 a 1975 as escolas de samba brasileiras deveriam tratar somente de temas da história nacional em seus enredos, Tiradentes, concebido por muitos como herói nacional. Em 1949 foi destaque no samba enredo do Grêmio Recreativo da Escola de Samba Império Serrano.  Foi somente desta vez que o herói teve uma homenagem exclusiva, no bicampeonato do Império Serrano, com o antológico “Exaltação a Tiradentes” (Mano Décio da Viola – Penteado – Estanislau Silva).

Observa-se que, como o próprio nome diz, a letra da música busca exaltar a figura de Tiradentes, colocando-o como personagem de destaque na Inconfidência Mineira. Sua memória é ressaltada e concebida como algo imortal na história do país, sua importância é enaltecida pela data de 21 de abril e pelo fato de ter sido sacrificado em prol do povo, o que nos remete a imagem de Jesus Cristo. A afirmação de sua lealdade e de seu desejo de libertar Minas Gerais contribui para que o personagem assuma um papel centralizador na Inconfidência Mineira, criando o imaginário de principal personagem da conjuração.

O Samba

Mano Décio tinha especial apreço pelo alferes, pois já no ano anterior apresentara, junto com Silas de Oliveira, nada menos que 3 sambas sobre ele. A escola preferiu apostar no tema “Antônio Castro Alves” (Altamiro Maio – Comprido). Mas 49 foi o ano de “Exaltação a Tiradentes”, apresentado por Mano Décio e Penteado num ensaio que arrebatou a escola. Estanislau entrou na parceria porque, tendo ouvido o samba, foi a Madureira pedir autorização para divulgá-lo no asfalto. Desta forma, foi o primeiro samba-enredo que sobreviveu ao desfile, sendo gravado por Roberto Silva apenas como “Tiradentes” e voltando a fazer sucesso no carnaval de 1955.

Foi o primeiro samba-enredo a ultrapassar os limites das escolas de samba e alcançar a consagração popular. Já houvera outros anteriormente, mais ou menos conhecidos, porém nenhum deles possuía, como “Exaltação a Tiradentes”, características de samba-enredo só fixadas nos anos cinquenta.

E é Mano Décio que, em depoimento a Sérgio Cabral (para a coleção “História das Escolas de Samba”), conta como fez o samba: “Logo no meu primeiro ano (na Império Serrano), eu e o Silas de Oliveira fizemos um samba para o enredo “Tiradentes”, que não foi aceito. Fizemos três sambas e nenhum foi aceito. Aí, num domingo, sonhei que estava cantando uma música…”.

Esta música viria a ser a primeira parte de “Tiradentes”, à qual, no dia seguinte, Mano Décio acrescentou uma segunda com a ajuda do compadre Penteado. “Ele tinha um samba com a primeira parte fraca” – conclui o compositor – “mas uma segunda muito boa que aproveitamos”. “Exaltação a Tiradentes” tem seu ponto alto na primeira parte, em que ressalta por duas vezes a presença do acorde de subdominante menor, dando à composição um certo tom de dramaticidade.

A letra de Exaltação a Tiradentes é bastante objetiva: apresenta Tiradentes, seu nome, a data de sua morte, seu envolvimento com a inconfidência e a traição de que foi vítima. O trecho final é emblemático dessa memória positiva sobre Tiradentes, justificando o título da canção: “Foi sacrificado pela nossa liberdade / Este grande herói”. “Exaltação a Tiradentes” se tornou um grande sucesso e chegou a ser gravada por diversos grandes nomes da música. como Elis Regina, Cauby Peixoto, Chico Buarque de Holanda e Jorge Goulart.

Desta aliança entre o samba e a história, resultaram outras verdadeiras obras primas da música popular brasileira, que transcenderam a esfera do carnaval e do tempo e ficaram registradas eternamente em nossas memórias.

Abaixo apresentamos algumas versões desta música.

Exaltação a Tiradentes

Joaquim José da Silva Xavier
Morreu dia vinte e um de abril
Pela Independência do Brasil
Foi traído e não traiu jamais
A Inconfidência de Minas Gerais
Foi traído e não traiu jamais
A Inconfidência de Minas Gerais

Joaquim José da Silva Xavier
Era o nome de Tiradentes
Foi sacrificado pela nossa liberdade
Este grande herói
Pra sempre deve ser lembrado

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *